quarta-feira, 28 de março de 2012

cordel ser mineiro

Autor: Olegário Alfredo (Mestre Gaio)
Membro da ABLC Academia Brasileira de
Literatura de Cordel
e ALTO Academia de Letras de Teófilo Otoni


CORDEL SER MINEIRO

Dizem que Minas são muitas
Vivendo no mesmo Estado
Norte, sul leste e oeste
Mineiro por todo lado
De costumes diferentes
Cada qual com seu ditado.

Por isso que vou falar
Como é que é o mineiro
Circunspecto, democrata
Cordial e prazenteiro
Rodeado de montanha
Difere do brasileiro.

Vem de seus antepassados
O tudo que lhe convém
O povo todo conhece
Ao falar se sente bem
Qualquer coisa pro mineiro
É conhecida como trem.

Ser mineiro por inteiro
É não dizer o que faz
E nem o que vai fazer
Sabendo que é capaz
Mesmo em tempo de guerra
O mineiro vê a paz.
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Fala pouco escuta muito
O mineiro que é da gema
Finge que não sabe nada
Desvendando um teorema
Mantém calmo e sereno
Ante de qualquer problema.

Mineiro finge de bobo
Mais é muito inteligente
Vende queijo no mercado
Esconde ser presidente
De banco que tem dinheiro
Diante de nossa frente.

Um bom mineiro dos “bão”
Não laça boi com embira
Não dá rasteira no vento
Nunca perde na catira
E não desvia a atenção
da presa que tem na mira.

Dizem que todo mineiro
É um ser desconfiado
Simples e religioso
Conservador e educado
Tem prudência é cauteloso
Precavido e ajuizado.
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Pois a arte de ser mineiro
Sobrevive em todos nós
Conhece um rio por inteiro
Da nascente até a foz
Nunca veste uma calça
Sem antes saber do cós.

Gosta de fazer política
E apreciar uma mulher
Sabe o que alimentar
Traça tudo que vier
Levando a vida na manha
Mineiro chega aonde quer.

O mineiro de verdade
Sabemos que não hesita
Gosta bem de pão de queijo
E de receber visita
Vive de sentir saudade
Quando o peito lhe palpita.

Mineiro gosta de praia
E se diverte pra valer
Mas não troca um friozinho
Que vem do amanhecer
De sua cidadezinha
De onde leva o seu viver.
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Adorar um futebol
É outra coisa do mineiro
Em qualquer canto de bar
Discute com o companheiro
Quem será o campeão
Se o Galo ou o Cruzeiro.

Acordar bem humorado
É sua profissão de fé
Cinco horas da manhã
O mineiro está de pé
Bota água pra ferver
Que é pra coar café.

Mesmo sendo um domingo
Mineiro não tem preguiça
Chama os filhos e a mulher
E vão todos para a missa
Depois todos vão comer
Pão de queijo com linguiça.

Almoço fim de semana
Quase sempre é diferente
O mineiro gosta sempre
De tomar uma aguardente
Para abrir o apetite
Refrescar um pouco a mente.
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A comida do mineiro
É de prato variado
Um franguinho caipira
Com angu e com quiabo
Cansanção e ora-pro nóbis
Com um bom leitão assado.

Depois vem de sobremesa
A goiabada cascão
Um queijinho bem curado
Que se pega com a mão
Cafezinho bão da hora
Completando a refeição.

Mineiro do interior
Na venda compra fiado
Ele mesmo é quem anota
O tudo que foi comprado
O dono não se preocupa
Em ficar desconfiado.

Mineiro quando vacila
Escorrega mais não cai
Gosta de entrar por baixo
Para ver como que sai
Quando está embaraçado
Tranquilamente diz: UAI.
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Mineiro gosta também
É de criar um passarinho
Um canário na gaiola
A trinar um miudinho
Faz com que o seu dono
Nunca sinta se sozinho.

O mineiro prevenido
Nunca sai sem agasalho
Prefere o mesmo caminho
Desconfiando do atalho
Sabe que da árvore velha
Pode se quebrar um galho.

Mineiro sabe escutar
Música de qualidade
Uma seresta com chorinho
Só lhe traz felicidade
Curte um rock diferente
O mineiro da cidade.
O lema do bom mineiro
É amar a liberdade

Praticar cidadania
Por prazer e dignidade
Mantém sempre a porta aberta
Para a hospitalidade.
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É comum na mineirice
Não tolerar desacato
Lê jornal todos os dia
Pra ficar dentro do fato
Sabe com antecedência
Quem que vai pagar o pato.

Mineiro quando tem raiva
Sente dor pela barriga
Dá um boi de garantia
Para não entrar na intriga
Mas também dá uma boiada
Para não sair da briga.

Com estranhos o mineiro
A conversa não estica
Só sente a dor na pele
Quando alguém lhe belisca
Educação e gentileza
Sabe bem como pratica.

Só acredita na fumaça
Se ver o fogo de perto
E sabe como ninguém
Tirar água do deserto
Finge de ser bobalhão
mas no fundo é esperto.
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Em trato de decisão
Só arrisca com certeza
Compreende com razão
Que beleza não põe mesa
E das mulheres compreende
Que Regina não é Teresa.

Ser mineiro também digo
É ter marca registrada
É saber falar “UAI”
Diante da namorada
Completar maioridade
Já com o pé pela estrada.

Ser mineiro é ter pureza
Ter coragem e bravura
Gostar de “causo” e história
Esta é sua postura
É ter espalhado na estante
Livros de literatura.

Mineiro levanta cedo
Pra ver o nascer do sol
Adora ver as crianças
A jogar o futebol
De tardinha gosta muito
De curtir o arrebol.
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Mineiro na mineirice
Leva prosa de doutor
É um ser religioso
E também inovador
Gosta de subir montanhas
E ter vida interior.

O mineiro também sabe
Ser poeta e literato
Manha e manemolência
Ele aprende com o gato
E sabe que a cobra brava
Só rasteja pelo mato.

Conhece muito o mineiro
Os ditados populares
Provérbios, anexins
Também coisas seculares
O saber de ser mineiro
É amar todos lugares.

Ser mineiro ainda falo
É ter a sabedoria
Simplicidade e modéstia
É sua especiaria
Em qualquer canto em que está
Transmite logo alegria.
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Muito mais sobre o mineiro
Eu digo logo a vocês
Gosta de dar um desconto
Pra não perder o freguês
Da galinha colhe os ovos
Deixando um para um indez.

O mineiro também sabe
Não olhar diretamente
Finge não dar atenção
Agindo sabiamente
Diz sempre muito obrigado
E se mostrando sorridente.

O sentido do mineiro
É fazer de um fracasso
O espírito da vitória
Dentro do mesmo compasso
Sem perder motivação
No ritmo do mesmo passo.

Mineiro dono do “Uai”
De sotaque natural
Fala baixo escuta muito
Preservando a moral
Não é santo de pau oco
E nem é cara de pau.
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O mineiro mineirando
Gosta mesmo de mercado
Não despreza uma rabada
Não escorrega no molhado
Come tudo que vier
Pois comer não é pecado.

O mineiro não perde o trem
Nem diz que trem vai pegar
Um trem bom é qualquer coisa
Pra se ver ou mastigar
Trem ou troço tem bastante
Não precisa procurar.

O mineiro quando morre
Por todos é consolado
Morrer é acontecimento
Ninguém de fato é poupado
Já disse Guimarães Rosa:
- Não morreu, ficou encantado.

Despeço-me deste cordel
Com saudações cordiais
Quem conheceu este Estado
Não o esquecerá jamais
Salve todos os mineiros
E salve Minas Gerais.
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Mineiro também eu digo
É ser especialista
Paquerar uma mulher
Com sutileza dum artista
Dize pouco de si próprio
Mesmo que a jovem insista.

Minas Gerais também é
Terra da bela mineira
Sobretudo inteligente
Peremptória e faceira
Se bobear ela sabe
Levar água na peneira.

Em Minas também cultiva
Uma viola caipira
Uma congada de primeira
Como também uma catira
Uma folia pra dançar
Se o turista interessar
Venha cá e logo confira.

Não podemos esquecer
Do mineiro em romaria
Ele frequenta festa santa
Para alegrar o seu dia
E na hora de dormir
Sabe rezar Ave-Maria.
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Fim

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