sábado, 6 de agosto de 2022

 

CORDEL PARA MILTON NASCIMENTO

 

No corre-corre da vida

Aqui me ponho a escrever

Uns versos muito singelos

Daquilo que posso ver

O que se finda na terra

Terá um novo renascer.

 

Tudo está na Natureza

Num só mesmo movimento

As engrenagens não param

Estamos todos em andamento

Para viver é necessário

Um sorriso a cada momento.

 

O Brasil é um celeiro

De portento cabedais

Por a cá é cultivado

O que vem dos ancestrais

O belo todo é concentrado

Aqui nas Minas Gerais.

 

É sobre Milton Nascimento

O teor deste cordel

Um ser interestrelar

Verdadeiro menestrel

Mareado por travessia

No bate-bate do batel.

1

Em um 26 de outubro

Dia de muito alegramento

Na favela da Tijuca

Nasce Milton Nascimento

Foi no Rio de Janeiro

Fato do acontecimento.

 

Não sei bem se o seu pai

O recebeu com amor

Sua mãe, Maria do Carmo,

Quem lhe deu o cobertor

Trabalhava como doméstica

No Rio do Redentor.

 

Aproximando dos 2 anos

Fica órfão o pequenino

Sua avó, uma mineira

Vem marcar seu predestino

Vê crescendo o menino

Entre o badalar do sino.

Sua avó então trabalhava

Na casa de Lília Maria

Professora de música

E maestra em poesia

Era por lá que o Bituca

Passava parte do dia.

2

Apegada à criança

Tanto Lília e seu marido

Que era Josino Campos

Um casal muito querido

Adotou o Milton Bituca

Como um filho bem nascido.

 

Ainda com pequena idade

Vai morar com os novos pais

Milton Nascimento, o Bituca,

Entre campos e animais

Vai crescendo o pequerrucho

Pelos campos dos Gerais.

 

Sobre o apelido Bituca

Vem dos índios botocudos

Milton se sentido fulo

Ficava bem carrancudo

Projetava pela boca

Um bico muito carnudo.

 

Carregando este apelido

Desde o tempo de criança

É o Bituca da infância

Um símbolo da esperança

Que segura o velho mestre

Pelo caminho da andança.

3

Milton, em seu nascimento

O tempo não te consome

E por mais que o trem corrói

O alimento que se come

A canção não se finda:

Em Minas está seu nome.

 

Anjo negro amarrotado,

Há pedras às escondidas

Por mãos brancas das esquinas

Ocultando mil feridas

E é com sangue que tu assinas

Doces acordes de vidas.

 

 

Ser negro em Minas negra

Nunca foi um privilégio

Mesmo assim Milton afirma

Nunca aprendeu no colégio

As eternas melodias

De seu vasto sortilégio.

Nascimento já maduro

Milton de três corações

O corpo todo imantado

A atrair novas canções

Do Ouro Preto a Diamantina

Ao som dos carrilhões.

4

Na pauta das duas linhas

Por um sol iluminado

Corre ruidoso vagão

Faiscando por todo lado

Música de forte compasso

É o Bituca metrificado.

 

Mil novecentos sessenta

Com mais dois, afirmo bem,

Vem sua primeira canção

Grava “Barulho de Trem”,

Muda pra Belo Horizonte

Entre o correr do vai e vem.

 

Desde os tempos do Maleta

No bar, na mesa de fundo

Era Milton Nascimento

Nos ensaios para o mundo

Ali sua voz ecoava

Num pulsar microsegundo.

 

Negro minério de ferro

Feito de Minas Gerais

Vagão da composição

Das notas musicais

Milton, somente Bituca

De mil, mil tons geniais.

5

Milton Nascimento habita

Do lado esquerdo do peito

De toda a humanidade

Um ser digno de respeito

Pois a sua dignidade

É avessa ao preconceito.

 

“As mulheres podem tudo”

Disse Milton Nascimento,

Podem até mudar o mundo

Com seu forte sentimento

A força de cada mulher

Faz virar rumo do vento.

 

No bairro Santa Teresa

Na sombra da sutileza

Milton Nascimento a brilhar

Entre o luzir da beleza

No seu jeito singular

Projetado de clareza.

E lá se vai, mais um dia

No baticum do Rosário

Serra acima Serra abaixo

Cumprindo seu calendário

O nascer marca o compasso

Na rota do itinerário.

6

De tamanha inquietação

Que é marca de todo artista

Milton com a rapaziada

Numa jogada futurista

Criam o Clube da Esquina

Movimento vanguardista.

 

Do batuque do tambor

Vejo brotar as canções

Em tons de bons nascimentos

A brilhar nos corações

Salve Mamãe do Rosário

A esparramar orações.

 

Miltonminas se comunga

Na brilhante luz do sol

Onde o caminhar se confunde

No lusco fusco do farol.

A canção vai emergindo

Num crepúsculo si bemol.

 

Milton Bituca recebe

Dos Guarani-Kaiowá

O batismo guarani

Ao batuque do arujá

Milton, “Semente da Terra”,

Nome que vigorará.

7

O mundo se curvará

Ao pôr da boca da noite

No corpo nascerá o amor

De que se perdeu no açoite,

Milton cantando no ar

A nascente do afoite.

 

Mas agora 80 anos

O velho une à criança

O nascimento no seu nome

O sinal da esperança

E viva vivo Bituca

Na canção que ora se dança.

 

Milton pode conclamar

A folha da juventude

Que é planta e sentimento

A brotar da inquietude

O mineiro carioca

Ser puro na plenitude

E Milton sabe dizer:

Tudo que vive envelhece

Da mais tênue florzinha

Até ao sol que nos aquece

Tudo, tudo menos o sonho

O sonho rejuvenesce.

8

 

              

                CORDEL EM LOUVOR

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

                          

É do Pico do Cauê

Que me vem inspiração

De dedicar estes versos

Ao Poeta da Nação

São mineiros meus versos

Tirados do coração.

 

A beleza mais profunda

Habita na poesia

E o poeta itabirano

Atingiu esta harmonia

Assim com Salomão

Em sua sabedoria.

 

A pedra do meu caminho

Morro abaixo já rolou

Na vereda em que caiu

Uma flor nela brotou

Desta flor quero agora

Sua forma e sua cor.

 

Santa Maria do Itabira

Acabou de me inspirar

E no cordel do Drummond

Vou agora versejar

Cada verso bem rimando

Em sextilha singular.

 

1

 

Em mil novecentos e dois

Foi o dia do arrebento

Minas Gerais o Estado

Onde nasceu o pequeno

De Carlos foi batizado

No dia do nascimento.

 

Um anjo no firmamento

De que torto foi chamado

Predestinou sua vida

A ser poeta acanhado

E o viver do poeta

Com compasso foi traçado.

 

O poeta é uma lanterna

Que não pára de piscar

Iluminando em seu redor

Tudo que acontecerá

É na guerra ou na paz

É na roça ou no altar.

 

Assim com Carlos Drummond

Tudo isso aconteceu

Cantou ele a pura justiça

E o pensar de quem sofreu

Cantou a paz e os amigos

Pelo tempo em que viveu.

 

2

 

Neste ano em que estamos (2002)

Cem anos ele faria

E a transformação do mundo

Chocado assistiria

O mundo ainda continua

Em bruta desiguaria.

 

Vou beber minha cachaça

Minha cachaça é meu cordel

Quem não tem sua cachaça

Decerto estará no céu

De Drummond Foi a poesia

Rascunhada no papel.

 

Dizem que a rosa do povo

No asfalto em que nasceu

Era a rosa da poesia

Que tão breve esmaeceu

Quando soube da notícia

Que o poeta então morreu.

 

No brejo de minha alma

Mora o sentimento do mundo

Unindo os cacos da vida

Em matéria de segundo

Talvez entenderíamos

O mundo no vasto mundo.

 

3

 

 

.A forma da palavra escrita

Carlos do Drummond foi o tal

Descobriu a medida certa

Do ritmo angelical

Não há perdas de palavras

Em seu verso natural.

 

Depois que Drummond partiu

Ficou mais triste o horizonte

Nenhum engenheiro é capaz

De construir nova ponte

Na lacuna que ficou

Deste legado profundo.

 

A poesia de Drummond

Foi um bem doado ao mundo

Gerações por gerações

Curtirão cada segundo

A riqueza que ficou

Deste legado profundo.

 

Pela sua simplicidade

O poeta poupa o verso

Quanto menos tanto mais

A palavra é do universo

São poemas que encantam

O de longe e o de perto.

4

 

Modernamente foi um clássico

O nosso poeta brasileiro

Amava muito as crianças

Foi estandarte da Mangueira

Viveu no Rio de Janeiro

Sem deixar de ser mineiro.

 

A vida passada a limpo

Ao redator de Plantão

José, Quadrilha, João

Aqui na terra e em Marte

Num galope a beira-mar

O lutador-comunhão.

 

Entre dois adjetivos

O melhor é o substantivo

Drummond sendo singular

Era muito criativo

Levou a vida inteira

Cabisbaixo pensativo.

 

O espírito do mineiro

Foi levado para o Rio

Vive lá eternamente

Com a energia no fio

A beleza da poesia

Foi de Minas que partiu.

 

5

 

A poesia do poeta

Não tem tempo nem idade

A grande população

De qualquer r rua ou cidade

Sabe que Carlos Drummond

Sempre é poeta de verdade.

 

De tanto pisar em ferro

Nas montanhas dos Gerais

Aprendi que a poesia

Escorre dos minerais

E o poeta com a bateia

Acha palavras geniais.

 

Dizem que era gozador

Nosso poeta mineiro

Se não acreditada em Deus

Religioso por inteiro

Obscuro e participante

Muitas vezes rotineiro.

 

Não há pedra pelo caminho

Que me tapa a poesia

Eu sou do sertão mineiro

Minha escola é o dia-a-dia

Sou formado no cascalho

Assim como Drummond dizia.

 

6

 

Gostou mesmo de louvar

Quem é bom de coração

Não louvo qualquer pessoa

Enxerida e charlatona

Louvo o poeta Drummond

Com a força da emoção.

 

Como todos nós sabemos

Poesia é pura emoção

E o poeta resolveu

O rosário na Nação

Com o seu: E agora José?

Indaga o nobre e o povão.

 

Lá no céu vai Drummond

Inteiramente à vontade

Um anjo torto lhe acompanha

Em qualquer cumplicidade

Ri dos vivos que cá estão

Com a maior simplicidade.

 

Itabira e Sabará

Continuam no lugar

Com a alma do mineiro

Ouvindo o tempo passar

A Vale comendo o ferro

Que o Japão vai vomitar.

 

7

 

Não se luta com palavras

Porque é uma luta vã

Drummond descobriu a forma

Da palavra sem divã

Por isso o mundo inteiro

Tem o Drummond como fã.

 

Também nos contos e crônicas

Nada fica para traz

Carlos, um bom artesão

Da palavra que satisfaz

Agradando a todo mundo

Do comum até ao loquaz.

 

Acabo aqui o meu cordel

Que compus em redondilhas

Ele vai pro mundo afora

Para todas as famílias

Será bem distribuído

Em formato de partilhas.

 

Eu também sou um poeta

O menor da escalação

Se eu errei no meu verso

Ou errei na louvação

Foi o ouvido que entortou

Peço ao Carlos o meu perdão.

 

8 - fim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 21 de maio de 2016

Rabeca Mineira: com Olegário Alfredo (Mestre Gaio) olegarioalfredo@gmail.com - www.olegarioalfredo.com.br